ARTIGOS

 

Bibliotecas Temáticas - Artigo Revista Época


Doutor livro ao seu dispor


Ainda pouco difundida no Brasil, a biblioterapia prescreve injeções de leitura para acelerar processos de cura

"Os textos consolam, amparam, dão esperanças e acenam com uma vida melhor", defende o escritor Moacyr Scliar, que também é médico

Universal/Divulgação

Ser ou não ser? Até hoje, leitores de todo o mundo se identificam com os dilemas de Hamlet, obra-prima de Shakespeare. Na foto, a versão cinematográfica protagonizada por Laurence Olivier

Na prateleira da sala ou na cabeceira do quarto, repousa um velho amigo. Sempre disponível para consultas, esse senhor de capa dura e lombada brochura não costuma poupar palavras. Às vezes, os livros nos acompanham ao longo da vida. E essa constância admirável nos enche de conforto. Quando ministrada na dose correta, a leitura diária de um punhado de páginas pode até ter efeito terapêutico. Em linhas gerais, é isso que propõe a biblioterapia.

Ao ler histórias sobre personagens que passam por conflitos semelhantes aos nossos, vislumbramos saídas e alternativas. Mas como encontrar "o" livro que poderia mudar a nossa vida? Dado o número de títulos disponíveis na literatura universal, a triagem pode ser extenuante. É aí que entram em ação os biblioterapeutas. Trabalhando como verdadeiros investigadores, eles pesquisam a "vida literária" dos pacientes para descobrir qual autor poderia catalisar o processo de cura.


Apesar de ainda ser pouco conhecido, o método vem sendo testado com sucesso em diversos países. Na Inglaterra, o pioneirismo coube à School of Life, instituição encabeçada pelas especialistas em letras Susan Elderkin e Ella Berthoud. Após um período de cinco meses de entrevistas (que podem ser feitas cara a cara ou a distância, por telefone ou e-mail), as duas traçam o perfil dos pacientes. O segundo passo é fazer a lista de obras a serem lidas. E se você pensou apenas em livros de autoajuda, saiba que não poderia estar mais enganado: de Ovídio a Saramago, tudo entra na dança.


Na verdade, a ideia de que livros podem ajudar a enfrentar problemas e carências emocionais é tão antiga quanto a própria prática de ler. No Egito antigo, o faraó Ramsés II já acreditava que os livros eram os "remédios da alma". Na Grécia Antiga, recomendava-se a leitura individual como parte do tratamento médico. Apenas a partir do século 20, a leitura compartilhada e a posterior discussão em grupo recebeu o nome de biblioterapia. Para o médico e escritor Moacyr Scliar, a biblioterapia está tão integrada à vida das pessoas que, às vezes, pode até passar despercebida. "As pessoas leem a Bíblia em busca de amparo emocional, por exemplo", pondera. Ele explica que as raízes da biblioterapia vêm dos textos sagrados, que "tinham efeitos psicoterápicos antes de a medicina pensar em psicoterapia".

Além disso, o autor frisa que os efeitos práticos da biblioterapia vão muito além da mera abstração dos problemas. Graças à catarse provocada pela identificação com as obras, os sentimentos reprimidos podem ser verbalizados, colocados para fora -- e trabalhados. "Os textos consolam, amparam, dão esperanças e acenam com uma vida melhor", defende. Apesar da semelhança com grupos de leitura, que elegem uma obra para ser discutida posteriormente por todos os integrantes, as sessões de biblioterapia se diferenciam por ter um mediador, que irá ditar os rumos da conversa e indicar os novos textos a serem trabalhados. "O coordenador precisa ter uma formação psicoterápica e conhecimento da área literária", completa Scliar. Somente com a soma dos dois campos de conhecimento é possível organizar um grupo realmente eficaz.


Autora de diversos artigos e livros sobre biblioterapia, a bibliotecária e professora Clarice Fortkamp Caldin destaca que há duas modalidades de biblioterapia. Enquanto a biblioterapia de desenvolvimento é executada por bibliotecários, na biblioterapia clínica o foco é o trabalho feito por psicólogos. "Por meio da leitura, narração ou dramatização de um texto literário, procura-se instigar a imaginação do público-alvo, ao mesmo tempo permitindo livre expressão de suas emoções", complementa. Dizer que o desabafo e a interpretação das histórias podem ditar os rumos da vida de alguém pode até ser um exagero, mas não há dúvidas de que os livros servem como parâmetros de comportamentos. "A pessoa é responsável pelas decisões que toma", diz Caldin. "O aplicador deixa ao cargo do público-alvo a liberdade de interpretação."

Se na terapia convencional o palco é o consultório, a biblioterapia é mais democrática: basta que se tenha a matéria-prima essencial -- livros, claro. "Na maioria das vezes, selecionam-se creches, escolas, orfanatos, asilos, casas de repouso, prisões, e executam-se as atividades de biblioterapia em local que acomode o público-alvo de forma confortável e aprazível", detalha a professora. Com tantos benefícios, será um bom negócio substituir a terapia convencional pelos remédios escritos? Para Caldin, a troca pode não ser uma boa ideia, uma vez que a biblioterapia de desenvolvimento é uma arte, não uma ciência -- e, como tal, não substitui os tratamentos convencionais ou medicamentos. "O cuidado demonstrado pelos aplicadores permite a intercorporeidade, a intersubjetividade e o descentramento, que são fatores benfazejos", explica. "Isso fornece a certeza de que não estamos sozinhos para enfrentar os problemas."

Vários títulos

Apesar de usar o mesmo princípio como base, a biblioterapia se divide em alguns tipos diferentes. Saiba mais sobre eles:

Biblioterapia institucional

·  Provavelmente, você já passou por ela. Muito usada em ambientes institucionais públicos e privados, é aquela palestra em que a empresa traz conteúdo novo que os funcionários precisam aprender. Pode ser feita em grupo ou de forma individual e não usa literatura, mas material didático.

Biblioterapia clínica

·  Feita em grupo, é voltada para pessoas com problemas emocionais ou comportamentais. É feita com uma equipe de médicos e bibliotecários, e usa literatura ficcional como base dos debates entre os participantes.

Biblioterapia desenvolvimental

·  Também em grupo, os participantes não precisam, necessariamente, estar passando por problemas psicológicos. Em muitos casos, o paciente está mentalmente saudável, mas atravessa um período de crise. A literatura usada pode ser ficcional ou didática.

Uma receita para cada caso

 

``A gente espera contribuir para que os pacientes superem o tratamento e a dor da doença´´ Cristiane de Castro, bibliotecária que está desenvolvendo um projeto para pacientes com câncer

 A idéia de ler os livros certos e, de repente, ver seus problemas evaporarem é um tanto simplista. A bibliotecária e professora Maria Alice Borges alerta que uma escolha de títulos feita de forma inadequada pode não dar resultado algum. Para não correr o risco de errar na mão, ter sensibilidade para perceber as reais necessidades dos pacientes e o ambiente onde o trabalho está sendo feito é essencial. Uma pessoa com tendências suicidas, por exemplo, não se beneficiará com leituras apenas sobre suicídio. "Você passa pelo tema, mas sob o ponto de vista de uma discussão, sabendo que nós poderemos chegar a uma situação igual a de outra pessoa que não tenha passado por isso."

Diferentemente de uma leitura banal, a biblioterapia busca dar informações sobre os problemas vividos e os resultados que se espera alcançar -- que mudam dependendo do público-alvo abordado. "Se for em um hospital, você tem que ter uma literatura que não seja de reforço àquela dependência hospitalar, mas uma que mostre que aquela dependência é um período transitório para uma mudança", ilustra a bibliotecária. Ela explica que, quando o trabalho é feito com crianças abandonadas, por exemplo, o cuidado com os livros receitados deve ser redobrado. Para ajudar a minimizar os impactos da realidade já complicada em que vivem, os profissionais podem usar e abusar da imaginação. Das histórias com fantoches a livros de contos, o principal é minimizar as deficiências e reforçar a mensagem de que há sim uma realidade complicada, mas também alternativas para ela.

E foi para apontar alternativas a uma realidade triste que a bibliotecária Mariana Giubertti, 24 anos, resolveu se aprofundar no assunto. Em 2009, a então estudante decidiu transformar a biblioterapia em projeto de conclusão de curso. Em um ano, Mariana mapeou e coletou dados em um orfanato, tendo como objetivo montar uma biblioteca infantojuvenil que usasse princípios da bilbioterapia. "Quis fazer isso não só para suprir as necessidades emocionais dessas crianças, mas para incentivá-las a ler, para que elas tomassem gosto por isso", justifica. O amor pela palavra impressa gerou não apenas o projeto de planejamento da biblioteca, mas também de uma brinquedoteca e de um ambiente de inclusão digital. A satisfação só não foi maior pela impossibilidade de ver tanto trabalho sair do papel. "Não pude aplicar o projeto porque o orfanato fechou", lamenta Mariana.

A também bibliotecária Cristiane de Castro Pires, 22, teve mais sorte que Mariana. Assim como ela, Cristiane também elegeu a biblioterapia como tema principal de seu trabalho para se formar em biblioteconomia, no ano passado. Entretanto, o foco não eram crianças, mas pacientes com câncer. O primeiro passo foi, literalmente, fazer as devidas apresentações entre os pacientes e as obras. "Procurei livros que tinham imagens bonitas, porque muitos não sabiam ler ou não tinham o hábito ainda", conta. Quando a pesquisa acabou, veio a vontade de colocar a mão na massa. Por enquanto, Cristiane conta que ainda está na fase de classificar os livros -- todos vindos de doações. "Quando a biblioterapia realmente começar, espero ter o auxílio de psicólogos e até de pacientes que gostam de ler e se disponham a ler para os outros", diz. Segundo Sandra Bonfim Baptista, assistente social que também vestiu a camisa do projeto, a previsão é que o trabalho comece em julho deste ano. "A gente espera contribuir para que eles superem o tratamento e a dor da doença", completa.

Na prateleira

O terapeuta e o lobo - A utilização do conto na psicoterapia da criança

O livro é o resultado de uma pesquisa clínica comparativa feita na França, que analisa crianças que passam por um processo de ruptura com suas famílias. Na obra, Celso Gutfreind -- psiquiatra infantil, poeta e escritor -- fala sobre a importância do conto para o reforço à identidade infantil e para driblar medos comuns na infância.

Editora: Casa do Psicólogo

Autor: Celso Gutfreind

O olhar médico -- Crônicas de medicina e saúde

Por meio de crônicas, o médico e escritor Moacyr Scliar fala de questões
ligadas à vida e à saúde de maneira geral, com temas como medicamentos, dor, esportes, sexualidade, velhice, morte e qualidade de vida.

Editora: Ágora

Autor: Moacyr Scliar


“COMO MATAR SUA ENTIDADE”

A bibliotecária Vera Stefanov publicou, em 01/10/2008, as dez regras básicas para matar sua Entidade de Classe. Por oportuno, reproduzimos abaixo, para reflexão dos colegas:

● Não freqüente a entidade, mas quando for lá, procure algo para reclamar.
● Se comparecer a qualquer atividade, encontre falhas no trabalho de quem está lutando por sua categoria.
● Nunca aceite uma incumbência, lembre-se de que é mais fácil criticar do que realizar.
● Se a diretoria pedir sua opinião sobre um assunto, responda que não tem nada a dizer e depois espalhe como deveriam ser as coisas.
● Não faça nada além do absolutamente necessário, porém, quando os diretores estiverem trabalhando com boa vontade e com interesse, para que tudo corra bem, afirme que sua entidade está dominada por um "grupinho".
● Não leia o jornal da entidade e muito menos os comunicados; afirme que ambos não publicam nada de interessante e, melhor ainda, diga que não recebe regularmente.
● Se for convidado para qualquer cargo, recuse, alegando falta de tempo, e depois critique com afirmações do tipo: "esta turma quer é ficar para sempre nos cargos".
● Sugira, insista e exija as realizações de cursos e palestras. Quando forem realizados, não se inscreva nem compareça.
● Se receber um questionário da entidade, solicitando sugestão, não preencha, e se a diretoria não adivinhar suas idéias e pontos de vista, critique e espalhe a todos que é ignorado.
● Após toda essa "colaboração" espontânea, quando cessarem as publicações, as reuniões, o lazer e todas as demais atividades, enfim, quando sua entidade morrer, estufe o peito e afirme: "Eu não disse?"

Rasgando a fantasia
Fernando Antônio Gonçalves

As nossas estatísticas sociais são chocantes, nos prostrando humilhados perante os países civilizados. Uma delas: o Brasil tem uma "biblioteca"pública para cada 33 mil habitantes, enquanto a França tem 13 vezes mais bibliotecas por habitante do que o Brasil. Lá a proporção é de uma instituição para cada 2.500 pessoas. Os dados foram fornecidos pela Fundação Biblioteca Nacional.
No Dia do Bibliotecário, comemorado minguadamente há alguns dias, a realidade é por demais cruel: cerca de 6,5% dos municípios brasileiros não possuem bibliotecas. Segundo a presidenta do Conselho Federal de Biblioteconomia, "o índice de bibliotecas por habitante no país é tragicamente insuficiente". E a Nêmora Arlindo Rodrigues, atual dirigente maior do CFB, ainda é mais incisiva: "mais de 90% das bibliotecas não têm acervo adequado, não atendem às demandas nem possuem profissionais capacitados".
Um outro dado é retrato fiel da alienação da nossa gente: segundo o Instituto Pró-Livro, 73% dos brasileiros não frequentam bibliotecas. E uma fotografia estampada em recente reportagem de jornal sulista sutilmentedeprecia a nossa região, por mais que explicite ser uma iniciativa de bons méritos: jegues carregando livros no sertão de Pernambuco, como forma de incentivar a leitura. O título é por demais ironizante: "no nordeste, jegue vira biblioteca ambulante".
Segundo a professora Eunice Soriano de Alencar, PhD e representante do Brasil, tempos atrás, no Conselho Mundial para o Superdotado e Talentoso, algumas posturas tornam-se extremamente lesivas para os que não gostam de ler, não apreciam uma leitura reflexiva, nem frequentam bibliotecas, todas viróticas. São as seguintes:

1. Capacitação voltada para o passado, enfatizando a reprodução e a memorização;
2. Práticas profissionais que admitem apenas uma única resposta, cultivando-se o medo do erro e do fracasso;
3. Valorização da incompetência, da ignorância e da incapacidade analítica, olvidados os incentivos aos talentos de cada um;
4. Menosprezo pelo auto-conhecimento;
5. Desenvolvimento de habilidades limitadas;
6.Obediência, passividade, dependência e conformismo;
7. Abandono da imaginação e da fantasia;
8. Descaso pelo cultivo de uma visão otimista dos futuros, sem hipocrisias nem messianismos.

Considero a leitura o melhor combustível para se seguir adiante, continuando a travar o bom combate, acreditando sempre que o mundo se revolucionará pacificamente através da ação radicalmente solidária dos seres pensantes. E vibro quando leio uma reflexão de uma concluinte de Pedagógico 1980, em instituição sediada na periferia da capital paranaense, reproduzida, aqui, com muita satisfação: "Gosto de gente com a cabeça no lugar, de conteúdo interno, idealismo nos olhos e dois pés no chão da realidade. Gosto de gente
que ri e chora, se emociona com uma simples carta, um telefonema, uma canção romântica, um gesto de carinho, um abraço e uma ternura. Gente que ama e sabe curtir saudades. Gosto de gente que cultiva flores, admira paisagens, semeia perdão, reparte vivências e confidências, sem fugir de compromissos difíceis e inadiáveis por mais desgastantes que sejam. Gente que orienta, entende, aconselha, busca a verdade e quer sempre aprender, ainda que a lição advenha de uma criança, de um pobre ou de um analfabeto. Gente de coração desarmado, sem ódio e preconceitos cavilosos. Gente que erra e reconhece, cai e levanta, apanha e assimila os golpes, tirando lições dos erros, fazendo redentoras suas próprias lágrimas e sofrimentos. Gosto de gente assim, desconfiando que é desse tipo de gente que Deus também gosta".

Os pensamentos da Lúcia Souza, autora do texto acima, indicam rumos comportamentais consistentes para todos aqueles que necessitam reestruturar-se para continuar seguindo adiante, num mundo de cenários múltiplos, díspares e divergentes, atualmente se debatendo numa crise gigantesca.
Tenho uma imensa compaixão dos que possuem alma pequena. Dos complexados por esse ou aquele motivo, dos que se imaginam corporalmente belos e se desestruturam com as primeiras rugas. Dos que não entendem a concepção moderna de família, refugiando-se num tribalismo hermético. Dos que não sabem rir, sentindo-se sempre os catões da diocese. Dos que se imaginam libertos, somente porque não prestam mais contas dos seus atos e andanças a companheiros, superiores ou subordinados. Dos que se arvoram de poderosos quando espezinham humildes, de quatro de postando, rabinho entre as pernas, diante dos superiores.
Admiro profundamente aquelas pessoas que fecham os olhos para ver melhor.
Que sofrem constrangimentos afetivos para ampliarem sua capacidade de integrar-se no Cosmo. Que não menosprezam acasos, pois eles só favorecem as mentes preparadas. E também admiro os que se apaixonaram, que nem eu, pelo paradoxo da Existência: aceitar a limitação de, não sendo Deus, confiar plenamente n'Ele, agindo como se tudo dependesse de nós.
Mas, e as Bibliotecas? Elas, se bem edificadas, com acervos atualizados e profissionais capacitados para educar e cativar, seguramente multiplicariam os talenos brasileiros, do nível da Lúcia Souza, aquela paranaense magrinha que um dia conheci, de origem muito simples, hoje Adjunta IV da Universidade Federal do Paraná, doutorado concluído recentemente, na Alemanha, com louvor máximo.

(Enviado pela Bibliotecária Cristiana Lima Correa)


O bibliotecário e a era do conhecimento por VERA STEFANOV e LEVI BUCALEM FERRARI

AS CIVILIZAÇÕES têm como marco inicial a palavra escrita, testemunho mais eloquente de qualquer cultura. Na Antiguidade, bibliotecas foram símbolo do prestígio das cidades que as abrigavam.
Zelar por elas era tarefa das mais importantes, atribuída a um segmento nobiliárquico competente. Ainda não se distinguiam os papéis do escriba e os do bibliotecário, como os entendemos hoje, mas o fato é que esses profissionais gozavam de prestígio e respondiam diretamente ao soberano.
A partir da invenção da prensa móvel por Gutenberg, aumenta exponencialmente o número de exemplares por livro e surgem os jornais, os fascículos, as revistas. Logo, as bibliotecas demandaram profissionais especializados, na moderna figura do bibliotecário -que desenvolveram sistemas mais eficazes de catalogação, disposição, conservação etc.
No Brasil, esse marco foi estabelecido pelo engenheiro, bibliotecário, escritor e poeta Manuel Bastos Tigre.
A importância de sua contribuição é reconhecida também pela legislação, que apontou a data de seu nasci- mento -12 de março- como o Dia do Bibliotecário no Brasil.
Em 1906, Bastos Tigre viajou para os Estados Unidos, onde conheceu Melvil Dewey, que já havia instituído o sistema de classificação decimal.
A partir de 1945, trabalhou na Biblioteca Nacional e, depois, assumiu a direção da Biblioteca Central da Universidade do Brasil.
Fiéis ao espírito pioneiro de seu patrono e aos inúmeros serviços que prestou ao país e ao livro, bibliotecários brasileiros clamam na data de hoje pelo reconhecimento social que, todavia, ainda não lhes faz justiça plena.
De fato, predomina, entre nós, muito amadorismo na questão. Enquanto o bibliotecário é visto como luxo dispensável, não raro outros profissionais são chamados para quebrar o galho, comprometendo a conservação de acervos importantes, sua disposição racional e sua acessibilidade.
Nas escolas a situação é de calamidade pública. Muitas nem sequer possuem bibliotecas. Não raro, é algum professor que se encarrega de organizar o acervo. Em outras, os livros se atulham sob escadas, corredores ou salas inadequadas. O impacto é extremamente negativo na formação dos alunos. Na idade em que a leitura precisa ser valorizada para que seu hábito se cristalize, o estudante vê livros tratados como entulho. Nada o convencerá mais tarde do contrário: o livro permanecerá entulho, e sua leitura, um ato despido de sentido.
Quanto ao ensino superior, as informações não são melhores. Boa parte dos grandes complexos educacionais privados costuma adquirir muitos livros. Mas, quantos? Uma centena de exemplares pode impressionar o leigo, mas está longe da suficiência se o número de alunos por curso passa da casa do milhar. Se isso é válido para uma política hipócrita em relação ao livro, imaginemos as proporções bibliotecário/usuário nessas instituições. Seu número é quase sempre insuficiente, como são precárias suas condições de trabalho.
No momento em que governo e sociedade no Brasil se dão conta de nossos vergonhosos níveis de leitura e se mobilizam para superá-los por meio de programas de incentivo, não é mais possível aceitarmos esses descalabros. É o momento de convocar o bibliotecário para -ao lado do educador, do escritor, do editor e de outros- traçar os rumos de uma política eficaz e duradoura para os livros e para as bibliotecas.
Entre os novos desafios, o maior vem da tecnologia da informação, que cresce exponencialmente. Ajudar o pesquisador, o profissional e o cidadão a pinçar, entre uma infinidade de informações, aquelas que realmente lhe interessam e que são confiáveis é apenas a ponta do iceberg. De fato, a possibilidade de acesso mais democrático à informação, à literatura e à cultura em geral não permitirá que o bibliotecário se aliene em relação a desafios que trazem em seu bojo a histórica oportunidade de aliança entre cultura e consciência crítica, entre informação e emancipação.
Inicialmente, ele terá de interagir em equipes multidisciplinares, em processos de mútuo aprendizado. Aos poucos, sua formação específica haverá de impor-se como peça-chave de funções socialmente tão relevantes. O bibliotecário se mostrará, assim, indispensável. Quando isso ocorrer, a forma como esse profissional for tratado por empregadores de quaisquer tipos, pela sociedade e pelo legislador representará indicador do grau de civilização que poderemos projetar para nós mesmos.


VERA LUCIA STEFANOV, 56, bibliotecária documentalista, é presidente do SinBiesp (Sindicato dos Bibliotecários do Estado de São Paulo).
LEVI BUCALEM FERRARI, 63, cientista político, é presidente da UBE (União Brasileira de Escritores).


Projeto fixa prazo de cinco anos para escolas terem bibliotecas

O 4536/08, em tramitação na Câmara, dá prazo de cinco anos para que todas as escolas, públicas e privadas, tenham bibliotecas. De autoria do deputado Marcelo Almeida (PMDB-PR), o projeto considera como acervo ideal a média de três livros por aluno matriculado, mas não fixa prazo para essa meta ser alcançada.

Atualmente, o Ministério da Educação desenvolve o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), por meio do qual distribui livros para todas as escolas públicas, dependendo do número de alunos. Uma escola com até 250 alunos, por exemplo, recebe 20 livros (0,08 livro por estudante).

O deputado disse que a exigência de três livros por aluno é tímida, mas aponta um caminho para ampliar o acervo bibliotecário. "A proporção proposta pela Associação Americana de Bibliotecas [Ala, da sigla em inglês] é de dez livros por aluno", compara o deputado.

Conforme a proposta, as bibliotecas devem divulgar as informações sobre seus acervos na internet). A proposta determina ainda que as bibliotecas disponibilizem em meio eletrônico todas as obras de domínio público, dando prioridade às de grandes escritores brasileiros.

A proposta foi apensada ao PL 3044/08, do deputado Sandes Júnior (PP-GO), que também fixa prazo de cinco anos para a universalização das bibliotecas escolares, mas estabelece meta de quatro livros por estudante e fixa prazo de dez anos para que as bibliotecas sejam administradas por bacharéis em Biblioteconomia.

Tramitação
Os projetos tramitam em caráter conclusivo e serão analisados pelas comissões de Educação e Cultura; e Constituição e Justiça e de Cidadania.

fonte:
http://www.aquidauananews.com/index.php?action=news_view&news_id=141408
 


Correio da Cidadania

Eles estão vivos - Gabriel Perissé   

Eles estão vivos. Falam em diversos idiomas. Escondem-se. Dão sustos. Fogem correndo. Voltam humildes. Ficam esgotados e se recuperam. Morrem, porque estão vivos. Ressuscitam, porque estão vivos.

Estão vivos, andam ao meu redor, me acordam no meio da noite, me levam para passear. Propõem charadas. Cantam, contam, esquentam minha frialdade, matam minha solidão, torturam meu tédio.

Vivos, falam o tempo todo da vida, e da morte. Falam de pontos e linhas. Falam de curvas e retas. Falam de nuvens e pedras. Não temem nenhum assunto. Tudo o que é humano lhes é familiar.

Vivos estão debaixo da cama, enquanto roncamos e sonhamos, sem saber o que planejam. Planejam tomar nosso cérebro. Ocupar nosso coração. Planejam reconduzir nossos pesadelos. Planejam atuar sobre os nossos planos.

Vivos estão sobrevoando as casas, enquanto rastejamos. Vivos estão no porão, no armário trancado, na sala sem ar.

Vivos, compulsivos, cumulativos. Invasivos como doenças. O que são? O que são? Não se deixam levar, não facilitam a nossa vida.

Nem sempre estiveram tão vivos. Antes, eram pontos obscuros em mentes diferentes, insurgentes. Eram intuições vagas, imagens confusas, palavras soltas, diálogos cortados.

Mas quando se tornaram coisas vivas, conseguiram gerar outras vidas. São multiplicativos, insaciáveis, milagrosos.

Quando estão em nossas mãos, essas coisas vivas ganham novos formatos. Emitem sons de todos os tipos, belos e horrorosos, insinuantes e detestáveis, harmoniosos e desafinados.

Porque são vivos, eles me perturbam, eles nos perturbam. Você e eu não podemos evitá-los, não podemos mais viver sem eles. A vida que transborda neles é a vida que nos falta viver. Bebemos neles a vida que queremos ter.

Se vivos não fossem, não teriam essa força toda. Não estariam tão próximos de nós, mais próximos do que os animais de estimação, mais íntimos do que muitos daqueles que se dizem amigos nossos.

Vivos, podem ser queimados. Vivos, podem ser vendidos, doados, emprestados, esquecidos, reencontrados.

Vivos estão. Mais vivos do que pensamos. Mais vivos do que gostaríamos, talvez. Gritando, uivando, gemendo, os livros vivos nos fazem pensar além da conta, nos fazem lembrar realidades que gostaríamos de eliminar, os livros vivos nos fazem imaginar fora de hora.

Vivos estão os livros, objetos que deixaram de ser objetos.

Vivos livros, vivos quando os lemos. Ou até mais vivos, quando os deixamos de lado.

Livros vivos que vivem em mim, e em nós.

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor. Website: http://www.perisse.com.br/